quinta-feira, 15 de março de 2012

14 de Março, Dia Nacional da Poesia - e eu nem sabia...

Que relapso que eu sou! Nem sabia que ontem, dia 14 de Março, era Dia Nacional da Poesia. Bacana isso (não eu não saber, é claro). O mais bacana, entretanto, é a motivação da data.
Se foi por meio da postagem via Facebook da grande dama do Instituto de Letras da UFRGS Jane Tutikian que eu fiquei sabendo desta data solene (que não é tão solenemente celebrada como deveria ser), foi através de outra grande figura, o colega de trabalho e das Letras Yuri Flores Machado que pude conhecer a origem do negócio: deve-se ao dia do nascimento de Castro Alves, "o poeta dos escravos". Uma baita homenagem, sem dúvida, para um baita poeta, o melhor entre os românticos brasileiros, na minha opinião, que, mesmo que fosse só em função de "O Navio Negreiro", já mereceria todo o reconhecimento do mundo. Que grande texto! Que obra-prima! Alguém aí já ouviu a versão da Maria Bethânia (onde ela também canta "Um Índio", de Caetano Veloso)? Certamente que sim, por isso resolvi colocar uma outra leitura do poema, onde Bethânia, em parceria com Caetano, mais uma vez recita o poema; não tem o mesmo drama, mas o videozinho do Youtube traz várias imagens bacanas - muitas são pinturas e desenhos de época, inclusive com a presença de ilustrações de Debret, o pintor francês que andou pelo Brasil no início do século XIX e reproduziu muitas das cenas da vida cotidiana colonial:

video

Mas o que eu queria dizer mesmo não era isso. Ao pensar sobre esse dia, fiquei tentando descobrir a partir de que momento a poesia teve presença mais especial na minha vida, afinal, para quem lida com a literatura - no nível acadêmico, como professor, escritor ou mesmo para quem somente aprecia, mas de forma realmente significativa -, essas coisas sempre têm uma motivação especial; parece que, em geral, o gosto não se forma espontaneamente, é preciso aquele momento de transcendência, aquela epifania louca onde o livro se abre e parece revelar todos os segredos do mundo; na prosa, sem dúvida, isso aconteceu comigo quando eu li o Bukowski pela primeira vez. Hoje eu nem acho o "dirty old man" tão bom quanto achava antes (eu tinha 15 anos - qualquer coisa cheia de palavrões me agradaria) e andei repensando isso justamente em outra data simbólica: na semana passada, quando do aniversário da morte do escritor, na Sexta, em pleno bar da Cidade Baixa que o homenageia. Porém, foi a leitura de Bukowski e quase toda a sua obra em prosa que havia disponível na época que me levou a John Fante, um dos grandes marginais da literatura norte-americana e dono de um estilo muito humano, verdadeiro e sutil. A partir disso, lembro que comecei a ficar obcecado com escritores que transpirassem esse tipo de "verdade" em sua literatura e que, de alguma forma, tivessem um comportamento tão politicamente incorreto quando Charles Bukowski...
...E eis que cheguei a Jack Kerouak; e esse que é um dos pais da literatura/cultura beatnik me levou a Allen Ginsberg, um dos outros pais; e, para a minha surpresa e absoluta igonorância juvenil, outro pai, o meu mesmo, tinha o grande clássico deste escritor na estante: "O Uivo" (uma edição da L&PM dos anos de 1980 que vinha acompanhado do poema "Kadish" e outros). Acho que a coisa começou a se desenvolver mais ou menos a partir daí... E de todos os poemas do livro - muitos totalmente lisérgicos, doidos - um ainda me emociona bastante:
"O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
(...)"
Lembro, também, que, como sempre foi de costume na minha vida, isso gerou outra obsessão meio nerd naquele momento: assim como acontecera com o Bukowski, resolvi ir atrás de outros poetas de estilo semelhante ao de Ginsberg; cheguei ao velho Walt Whitman, que na verdade era totalmente diferente. Todavia - de novo - via ali algo tão verdadeiro, tão sincero, que nem a metáfora mais brilhante conseguiria substituir...
"Vivas àqueles que levaram a pior!
E àqueles cujos navios de guerra
afundaram no mar!
E a todos os generais
das estratégia perdidas,
que foram todos heróis!
E ao sem-número dos heróis desconhecidos,
equivalentes aos heróis maiores
que se conhecem!"
Mas se a questão é falar sobre o Dia NACIONAL da Poesia, o que isso tudo significa? Bom, o que eu sei é que meu comportamento adolescente "pseudoliberal" daquela época me deixara muito preso a referências estrangeiras, principalmente as norte-americanas. Ok, eu era "do rock", usava camiseta de banda (ainda uso), tinha um cabelo comprido ridículo, horroroso (esse eu não uso mais, ainda bem); era normal esse vínculo. E como eu sempre tive uma certa tendência nerd, um conservadorismo disfarçado (como é particular a muitos jovens) não me fez ir muito além - até com relação ao Bukowski, demorei muito para constatar que sua grande obra estava mesmo era na poesia, não na prosa (pelo menos hoje eu acho isso). Mas lá pelas tantas eu cheguei ao Paulo Leminski - e aí sim é que a coisa ficou intensa.
Hoje, um dia após o Dia Nacional da Poesia, minha lembrança mais carinhosa sobre meu contato com a poesia está ligada a ele, o poeta curitibano que citava muitas das minhas referências como leitor aqui mencionadas em suas obras; e mesmo hoje, diferentemente de outros, este é o meu poeta preferido. Seja no ramo da poesia concreta, seja no poema-piada, seja no constante jogo de metalinguagem, enfim, por algum motivo este foi o poeta que eu escolhi... Há questões que vão muito além do valor estético e te tocam por dentro. A poesia de Leminski sempre fez isso comigo, sempre me trouxe uma sensação boa, mesmo que nunca precisasse ser transcendente - pra isso nós temos a Cecília Meireles:

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Por outro lado, a visão bem mais sintética de Leminski também é legal:

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
No final das contas, acho que poucos conseguem mostrar de forma tão clara a questão da criação quanto ele mesmo:
“Seria demais, certamente, supor que eu não precise mais da realidade. Seria de menos, todavia, suspeitar sequer que a realidade, essa velha senhora, possa ser a verdadeira mãe destes dizeres tão calares”
Também em função de Leminski, comecei a abrir meus horizontes. Hoje, como leitor de poesia, não diversifico tanto o cardápio, mas muita coisa, de fato, entrou nele: Vinicius de Moraes, Quintana, Drummond, Pessoa. E é por essas e outras que Paulo Leminski é o meu homenageado de hoje e de sempre, mas principalmente de hoje, no pós-Dia Nacional da Poesia.
(E o teu, quem é? Qual é o teu poema ou poeta preferido? Quais são os versos que tu mais gosta? Escreve aí, dos meu!)

Um comentário:

Yuri Flores Machado disse...

Vou levar lá no colégio o Navio Negreiro do Heine, o poema que inspirou Castro Alves. E vou tentar mais uma vez, recomeçar a leitura de Catatau. Por qnquanto como falei, estou em um estado Drummond de ser:

História Natural

Cobras cegas são notívagas.
O orangotango é profundamente solitário.
Macacos também preferem o isolamento.
Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
Andorinhas copulam no voo.
O mundo não é o que pensamos.

Abraço Vinícius!!!